jusbrasil.com.br
5 de Abril de 2020

Das intermitências dos sonhos

Abner Eberle Dal Piva, Advogado
Publicado por Abner Eberle Dal Piva
há 3 meses

Mais um ano pra conta, hein, meus caros?!

E pode ter certeza: ele passou mais rápido do que o anterior, assim como 2020 passará mais rápido do que 2019.

Lembra de quando você era criança e demorava uma eternidade até que chegassem as férias de julho? E, depois, mais uma eternidade pra chegar o natal?

Quanto mais o tempo passa, mais a nossa consciência ganha experiência temporal, de modo que vamos tendo a impressão de que os dias estão sendo abreviados.

Impressão ou não, ninguém pode discutir com a poesia cantada pela Ana Vilela, de que “a vida é trem-bala, parceiro / E a gente é só passageiro prestes a partir”.

Esta é a época em que paramos para refletir acerca do tempo, do que fazemos com ele e como fazemos. É a hora do balanço, de revisitarmos todas as promessas feitas quando o ano começou, comemorar aquilo em que houve êxito e ponderar aquilo que ficou pelo meio do caminho.

Digo mais: ao contrário do resto do ano, este é o momento do sonho.

Tal qual no romance do José Saramago, em que ocorre a ausência da morte num determinado país e uma situação calamitosa se instaura em decorrência desse fato, as intermitências dos sonhos também geram em nós um estado caótico.

É justificável que a crueza dos dias nos roubem a capacidade de sonhar, de imaginar, de conceber, pois, diante de tantos afazeres e a correria diária, seria muito luxo perder tempo com coisas etéreas e que habitam apenas o mundo daquilo que poderia vir a existir.

E é assim que, logo nos primeiros dias do ano, os prazos, os processos, as consultas, os trânsitos, os governos, os sistemas, as violências, as injustiças, as misérias, as doenças, os cansaços, enfim, as lutas nos roubam qualquer possibilidade de dar expressão à centelha do divino que habita em nós: os sonhos.

São os sonhos que dão origem a todas as coisas, são eles que nos tornam à imagem e semelhança do Criador.

Como escreveu lindamente o Calderón de La Barca, o que é a vida, senão sonho?

Que é a vida? Um frenesi.

Que é a vida? Uma liusão,

Uma sombra, uma ficção;

O maior bem é tristonho,

porque toda a vida é sonho

e os sonhos, sonhos são.

Foram os homens e mulheres mais loucos e sonhadores que criaram as mais belas obras de arte que a humanidade já viu. Foram os sonhadores que deram azo à imaginação e criaram os meios de transportes que permitiram povoar o planeta e ganhar o espaço sideral. Foram eles que criaram as comidas e os cheiros dos quais você não consegue se esquecer. Foram eles, os sonhadores, que criaram instrumentos para que esta nossa existência pudesse ser mais digna.

Por todas essas razões, é que as intermitências dos sonhos trazem caos ao mundo. Quando os homens não sonham, são incapazes de criar e, por via de consequência, tornam-se acomodados e incapazes de protestar.

Muitas vezes acaba parecendo que os homens bons sucumbem e os maus prevalecem. Mas imagine como esse mundo não seria melhor se todos nós conseguíssemos manter a chama acesa durante o ano inteiro.

É preciso povoar a terra das injustiças com justiça. É preciso não perder a capacidade de se indignar diante das opressões.

Assim é que, neste crepúsculo da segunda década do século 21, eu te convido a sonhar. Aproveite o período propenso e leve adiante os sonhos que vieram à superfície nestes dias. Tire os projetos antigos da gaveta. Arrume tua postura. Coloque tua casa em ordem. Não fale mentiras. Não pretenda salvar o planeta, mas faça algo de valor pela tua família e pela tua comunidade. Aprenda a contar teus dias a fim de alcançar um coração sábio.

0 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)